Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Aquele dia que por cá ninguém fala

Há quatro dias atrás foi aquele dia na China que todos nós sabemos mas que dele aqui ninguém fala. Foi há 18 anos. Esse acontecimento, as sanções internacionais que se seguiram e o fim da U.R.S.S . terão sido interpretados pelos líderes de então como um sinal de necessidade de mudança. Aos poucos foi reaproximando-se do Ocidente e este seduzido pelas potencialidades deste mega mercado acabou por esquecer o tal dia que nós sabemos. Questiono-me se este esquecimento não terá sido o melhor que o Ocidente alguma vez poderia ter feito pelo povo deste país. No exterior penso que é generalizada a opinião de que o regime político chinês está, com o passar dos anos, de pedra e cal, de facto, assim é, a possibilidade de nos anos próximos surgir um movimento democrático de oposição é algo impensável. Vivo em Pequim, uma mega urbe cuja realidade sei não ser a realidade do interior mas que é a mesma de outras grandes cidades espalhadas por esta China fora, ou seja a realidade de centenas de milhões de pessoas e do grosso da massa crítica. O povo está feliz, longínquos são os tempos em que predominava o azul/verde das vestes operárias, o telemóvel e o leitor mp3 , na próxima geração, segundo a Lei de Darwin, serão os novos orgãos humanos dos habitantes deste canto do planeta, os jogos olímpicos estão à porta, vive-se uma espécie de bebedeira colectiva tamanho é o excesso de novidades.  O orgulho pelo desempenho do governo é notório, quando a fórmula mágica deste apenas consiste na abertura das portas ao investimento exterior e nos miseráveis salários. Tem sido um empurrar com a barriga que tem sido conveniente a todos, a última concessão foi o reconhecimento da propriedade privada (ainda não nos moldes como conhecemos, mas um importante passo). Depois há a internet, esse gigante que nem mesmo o filtro chinês consegue dominar (discordo daqueles que criticam o Google por censurar certos conteúdos, a sua presença faz muito mais pela democracia do que a sua ausência). O ser humano tem aquele pequeno defeito chamado ambição, quer sempre mais, os chineses não são diferentes, não se contentarão eternamente com as mesmas conquistas, liberdades, os mesmos salários. Como isto de controlar a felicidade do povo de um país “capitalista” não é coisa fácil, os salários, naturalmente, acompanharão o crescimento económico até que, um dia, a economia já não será tão competitiva e o poder de compra diminuirá. Nessa altura as brilhantes qualidades dos timoneiros serão postas em causa e a pergunta “Se estes tipos não conseguem porque não outros? ” surgirá e, quem sabe, até do interior do próprio partido. Talvez então se faça a transição pacífica para uma democracia multipartidária, talvez um dia aquela praça que todos nós sabemos  receba flores de homenagem aos jovens que deram o bem mais precioso que tinham e não de homenagem a corpos embalsamados que em vida se julgaram imperadores.  Divagações, quem sabe...

 

Nota: A fotografia foi furtada no China em Reportagem.

 

publicado por Conde da Buraca às 12:58
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