Domingo, 28 de Janeiro de 2007

Observação de Café #1 – O Jornal Desportivo

O fenómeno a que hoje nos queremos dedicar é de facto extraordinário, todo ele se desenvolve em redor de um pequeno objecto que há primeira vista não aparenta o mínimo valor mas que é de importância vital para o ser humano, não exageraria se afirmasse que o seu impacto é da mesma grandeza de outras grandes invenções/descobertas como o domínio do fogo, a roda ou ainda os jaquinzinhos com arroz de tomate. Falo-vos do diário desportivo, não dos seus fabulosos efeitos no intelecto humano, isso toda a gente sabe, seria o mesmo que vir aqui anunciar que sem oxigénio é impossível viver. O que se pretende aqui focar é um outro efeito que este tipo de jornal provoca no comportamento do homem e que, ao comum dos mortais, tem passado despercebido. Mas primeiro e para aguçar a curiosidade, queria explicar como tive conhecimento desse ainda não revelado efeito. Não há muitos anos, bebia eu uma cervejola numa tasca refundida, ali para os lados de Alfama, quando o gerente da superfície comercial, num inglês muito manhoso, me sai com esta “Jovem, nessa mesa onde estás sentado, passou horas e horas o Gandhi, aquele maluco lá da Índia”. Respondi-lhe que era escusado vir com essas tangas, apesar dos olhos azuis não sou camone. O homem insistiu e para o provar dá-me a ver uma velha fotografia onde de facto, naquela mesma mesa, estava sentado um jovem que aparentava ser de origem indiana ao lado de um outro senhor de farto bigode, “este é o meu avô, o fundador aqui do estabelecimento” diz com orgulho. E lá continuou, “Dizia o meu velho, Deus o tenha, que no primeiro dia que ele cá veio, ao fim de duas horas sentado nessa mesma cadeira, o homem como que possuído pelo diabo, partiu violentamente a sua garrafa de leite Ucal e com ela tentou agredir um cliente que lia “O Velocipedista”, o jornal desportivo da época. Sete, sete homens para dominar o bicho. Depois caiu em si, desfez-se em mil desculpas e levou os restantes dias que cá passou a pagar rodadas de ginginhas. Parece que até era um tipo porreiro, mas não dá para compreender aquele comportamento, ainda para mais sabendo no que ele depois se tornou”. Parvo com o que tinha acabado de escutar, disse “Ò chefe, devia ser outro, provavelmente os Ghandis são os Silvas lá do sítio”, mas ele não desistiu “É verdade o que lhe digo, o barco que o transportava de Calcutá para Londres foi forçado a atracar em Lisboa durante um mês para reparações dos danos provocados pelo mau tempo. Na altura, decorria o mundial de críquete, o tipo era grande aficionado e passava cá todos os dias para consultar os resultados no Velocipedista. Além disso, muitos anos mais tarde, quando já era uma celebridade, o meu avó reconheceu-o nas fotografias dos jornais”. Pondo em prática os ensinamentos da minha mãezinha em como se comportar com gente maluca, lá lhe disse que sim, paguei e pus-me a caminho. Nunca mais pensei naquele diálogo até que, recentemente, num canal da tv cabo, dou de caras com aquele rosto da fotografia, era um documentário biográfico de Gandhi. Sentia que estava perto de uma descoberta revolucionária, tinha que rapidamente avançar com as investigações. A escolha do local para aprofunda-las revelou-se fácil, diria mesmo que não podia ser outra, o café da esquina está para o ser humano como a savana está para os grandes felinos. É um habitat de condições árduas onde apenas os mais fortes sobrevivem. Para lá me dirigi, 12.00h, inicia-se o período de duas horas em que se atinge o pico da procura do jornal desportivo, na mesa do canto, o Sr. Machado já está na posse do objecto alvo de tanta cobiça. O Sr. Machado, reformado, dos seus oitentas é o que podemos chamar o topo da cadeia alimentar, o leão dominante, aquele à volta do qual, na hora da refeição, todos lançam olhares famintos, aguardando pelas sobras. Quando o relógio marca 12.15h, o Sr. Machado acaba de concluir a leitura da capa. Apesar do início algo lento consegue recuperar, uma hora depois, já se encontra na contracapa, hoje está acelerado, deve ter algum compromisso. Sente-se uma certa tensão no ar, o segundo decisivo aproxima-se e a mínima distracção poderá ser fatal, apenas se ouve a voz do José Rodrigues dos Santos, os músculos contraem-se e … falsa partida, o Sr. Machado recomeça a leitura mas agora no sentido inverso. É notório o desânimo nas mesas circundantes mas ninguém desiste. 13.30h, o Sr. Machado está de regresso à primeira página, sem pousar o jornal, tira os óculos do casaco e inicia a leitura daquela coluna cinzenta, aquela onde se informa o número de exemplares da edição, o nome do director, o nome do vice-director, o nome dos jornalistas, dos moços de recados, das empregadas de limpeza, do arrumador de carros na rua da redacção, do adjunto do arrumador de carros, etc. É nesse momento (falta meia hora para picar o boi) que se verificam as primeiras desistências mas a casa ainda continua composta, chego à conclusão que no bairro vivem muitos funcionários públicos. 13.50h, o Sr. Machado pousa o jornal, claramente um sinal para avançar, um rapaz que não conheço consegue antecipar-se aos seus adversários mas à pergunta “Desculpe, posso dar uma vista de olhos?” recebeu como reposta “Lamento, mas aqui o Ferraz já o tinha reservado”. O rapaz com um sorriso amarelo retirou-se enquanto o Sr. Machado comentava com o Sr. Ferraz que a Sr. Alexandra do jornal tinha sido substituída por uma nova empregada de limpeza. A observação estava concluída, com os dados recolhidos estava em condições de juntar as peças e formular com segurança as conclusões. Tudo agora faz sentido, esta “batalha” já secular que todos os dias se desenrola nos nossos cafés acabou por transformar o homem português num ser humano altamente pacífico. Pode parecer estranho mas  apenas o é porque quando se está inserido numa sociedade é mais difícil avaliá-la. O comportamento violento de Gandhi é a maior prova desta teoria, se o homem símbolo da paz e do diálogo não resistiu a esse duro teste, é porque o português possui realmente características especiais. Agora compreendo o porquê de nunca ter encontrado um café, um único que seja, com dois jornais desportivos, um para uso exclusivo dos clientes pensionistas e o outro para os restantes. Não encontrei porque não é permitido, o Estado há muito que tem conhecimento das propriedades relaxantes da combinação reformado/jornal desportivo. Com dois diários desportivos por café, inevitavelmente, a duração diária da prática deste exercício pacificador diminuiria drasticamente, o efeito seria precisamente o contrário, aos poucos os níveis de agressividade da população aumentariam e consequentemente Portugal transformar-se-ia num país difícil de controlar. Há dois momentos marcantes da História Portuguesa do século XX que sempre me intrigaram no modo como sucederam e que agora compreendo. O primeiro é a instauração da ditadura política, como terá sido possível tal acontecimento sem uma única bala disparada, uma manifestaçãozinha, nada, enquanto que na nossa vizinha Espanha só depois de uma duradoura e sangrenta guerra civil. O outro momento dá-se 50 anos depois com o fim dessa ditadura. É verdade que nesta ocasião dispararam-se algumas balas junto à sede da Pide mas como se explicam os cravos nas G3 (recordo que o LSD ainda não era muito popular em Portugal) e a ausência desses actos tão típicos nas revoluções que são os fuzilamentos e os enforcamentos.  
 
Nota: A ideia dos jaquinzinhos com arroz de tomate veio daqui. Olhe que não, Shô Doutor! Olhe que não, é de ler e chorar por mais.
tags:
publicado por Conde da Buraca às 17:55
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De Pedro a 5 de Fevereiro de 2007 às 15:35
O jornal no café é um símbolo de poder, um dos mais fortes, se não mesmo o mais forte, que as sociedades modernas conhecem. Eu, porque gosto do poder, até as modalidades e a programação leio.

Comentar post

clique no imagem para enviar e-mail peneirar@gmail.com


Clique aqui e aceda ao Peneirar pelo tapete vermelho

.pesquisar

 

.links

.posts recentes

. “Não se distingue se é um...

. Conversas no Divã

. Amo-te. É isso que eu ten...

. Uma Questão de Democracia

. Ka Ganda Vaca

. Coisas Boas – Broken Soci...

. Vende-se Voto

. Reflexões pós chifres

. Mais um sector em crise

. Aqui não passaram

.arquivos

. Novembro 2015

. Fevereiro 2011

. Dezembro 2010

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Novembro 2008

. Agosto 2008

. Junho 2008

. Abril 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds