Domingo, 22 de Novembro de 2015

“Não se distingue se é um boi ou uma vaca”

Foi com esta frase contundente que, há quase 20 aninhos, um taxista de Foz Coa manifestou-me a sua opinião quanto ao valor das gravuras e aos benefícios que poderiam advir da preservação destas em detrimento da construção da nova barragem. Mais desinibido ainda acrescentou que, mais tarde ou mais cedo, uns bons kilos de explosivos acabariam por resolver o problema.

Regressava na ocasião de uma visita ao famoso Vale do Coa e aquela frase do taxista jihadista ia de alguma forma ao encontro da decepção que de mim se apoderara quando finalmente me deparei com os rabiscos dos nossos antepassados.

Decepção porque a expectativa era enorme, vivia-se em pleno apogeu da febre das gravuras e, na realidade, foi com muita dificuldade que aqui e ali consegui distinguir os contornos de um animal, quanto mais se de boi ou de vaca se tratava. Não dei a viagem como perdida, é aliás uma daquelas que guardo com um carinho especial por motivos que agora não vêm aqui ao caso. O que queria agora reter foi a incapacidade de então não ter visto para além dos rabiscos, eles não estão lá para nos dizer o sexo do animal mas para nos transmitir outro tipo de mensagens muito mais importantes.

Há daqueles humanos que, usando a arte como ferramenta, são capazes de nos remover “cataratas” que até então nem nos tínhamos dado conta da sua presença. O realizador alemão Werner Herzog tem esse dom e com o seu documentário “A Caverna dos Sonhos Perdidos” fez-me aperceber que uma dessas películas cinzentas estava alojada nos meus olhos.

A “Caverna dos Sonhos Perdidos” dá-nos a conhecer o interior da Caverna de Chauvet assim baptizada em homenagem ao seu descobridor Jean Marie Chauvet que nela penetrou pela primeira vez há 20 anos. Distingue-se das demais por a natureza ter decidido congela-la no tempo, ocultando-a do mundo exterior durante milhares de anos com um desabamento de rochas que obstruiu a entrada.

Ainda bem que assim decidiu, nela encontram-se as gravuras mais antigas alguma vez descobertas, num estado de conservação impressionante que imagino transmitir a sensação a quem as observa de que ainda é habitada, de que estão a invadir a privacidade de um lar e de que se não escaparem rapidamente vão acabar por dar de caras com os seus habitantes de regresso da caça.

Herzog não se limitou a captar as imagens das gravuras. Estas são por si só de uma beleza estonteante apenas ao alcance de um punhado de eleitos. Herzog foi mais além do que transmitir a arte desses Leonardos Da Vincis Pré-Históricos.

Combinando as imagens com as frases dos entrevistados nos momento certos, as suas próprias divagações e outros recursos da sétima arte como a música, faz-nos viajar no tempo e sentir que as gravuras estão vivas e em harmonia umas com as outras.

No fundo concluiu um documento que nos foi preparado intencionalmente pelos nossos antepassados de há aproximadamente 32 mil anos. Um filme inacabado que aguardava apenas pela chegada dos tempos modernos e seus aparatos tecnológicos para ser concluído, os últimos retoques. Herzog cumpriu magistralmente com essa missão, honrou o privilégio de ter recebido em mãos tamanho tesouro.

E a pergunta que se coloca é o que nos queriam dizer os nossos antepassados?

Atrevo-me a opinar (cada um retirará as sua ilações) que a fragilidade da humanidade e o inquantificável valor que tem o milagre da nossa existência. Depois de improváveis combinações de factores que originaram a vida e mais uma sucessão de outros raros acontecimentos que culminaram no nascimento do homem, este viu-se envolvido numa luta desigual pela sua sobrevivência.

Quem apostaria que aquele frágil ser, que tinha como vizinhos animais bem mais dotados de ferramentas para matar, sobrevivesse? Sobreviveu e a sua vida não se limitava a garantir a continuação da espécie como erradamente muitos de nós imaginamos. Sim, apesar das dificuldades extremas desses dias em que a sombra da morte não dava tréguas, o homem já apreciava o belo e encontrava espaço para sonhar e materializar esses sonhos com arte da mais pura beleza.

Somos todos herdeiros destes nossos antepassados e das dificuldades que passaram, é nossa obrigação respeitar a herança que nos deixaram.

Hoje, num mundo repleto de pequenos confortos, dedicamo-nos a extremar as nossas diferenças por motivos fúteis como a religião, o vil metal e um sem fim de insignificantes absurdos, esquecendo-nos que a humanidade somos todos nós.

Deixo a “Caverna dos sonhos esquecidos” na sua versão integral para quem tiver curiosidade e com a esperança de que chegue ao taxista de Foz Coa, talvez o faça mudar de ideias.

Afrodite, se eu fosse um homem pré-histórico e tu uma mulher das cavernas, o Herzog ficaria intrigadíssimo com a constante repetição da pintura do teu rosto em cada uma das paredes, a primeira manifestação de amor na história da humanidade.

 

 

publicado por Conde da Buraca às 16:58
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