Domingo, 21 de Junho de 2009

Aqui não passaram

Livro da autoria do General Carlos Azeredo que se debruça sobre a época das invasões napoleónicas em Portugal com especial atenção para com a segunda comandada pelo Marechal Soult. Escolhi-a como livro de cabeceira, atraído pelas comemorações bicentenárias e movido por uma necessidade cada vez mais crescente de conhecer em mais pormenor o nosso passado. Quanto mais o conheço mais me espanto com a negligência dos sucessivos governos no que respeita ao ensino, conservação e divulgação da nossa história. Quando os conhecimentos da generalidade dos portugueses em relação aos quase mil anos de Portugal se resumem a meia dúzia de acontecimentos e, mesmo esses, de uma forma superficial ou errada, está tudo dito. Um deles, a transferência do governo e corte portuguesa para o Brasil, aquando da primeira invasão francesa é geralmente interpretado como um acto de cobardia, sendo D.João VI retratado como o cobarde mor, o ignorante ou ainda o gordo cujas preocupações se resumiam ao conteúdo da ementa real do dia.
A “fuga” para o Brasil não foi um acto espontâneo, pelo contrário, foi preparada com muita antecedência, envolvendo uma preparação logística de grande envergadura que foi ao pormenor de se transferirem os mármores das secretárias para os futuros serviços administrativos da nova capital. Foi reconhecido pelas nações europeias de então como um golpe estratégico genial e mais tarde o próprio José Bonaparte, no seu memorial em Santa Helena, admitiu o fracasso. O exército francês era a mais poderosa máquina de guerra de então, chegava a Portugal sob uma aura de invencibilidade, vergando todos que se atreveram a opor-lhe resistência, pelo que a decisão de D.João VI revelou-se a mais sensata, evitando a capitulação e permitindo a manutenção do império. Sobre esta estúpida capacidade de ignorarmos os feitos dos nossos antepassados e os deste caso em concreto, deixo o convite a quem conseguiu chegar a estas linhas para visitar o exercício de história comparativa com que Miguel Castelo Branco nos brinda, um regalo para a mente como aliás o é todo o seu Combustões.
Regressando à obra do General Carlos Azeredo, esta é antes de mais uma homenagem à valentia das gentes do interior rural norte português, elas sim as verdadeiras responsáveis pela derrota das tropas do Marechal Soult. Transformaram o passeio planeado pelo próprio José Bonaparte num pesadelo sem fim que culminou com uma fuga humilhante e desesperada por caminhos de cabra, abandonando pelo caminho os tesouros pilhados. Os relatos dos soldados franceses dão-nos conta de pequenos grupos de agricultores kamikazes que se lançavam sobre as colunas militares, da resistência que encontravam nas pequenas aldeias e vilas do interior, comandada pelos padres armados com a cruz e por velhos nobres com as suas velhas espadas que decoravam há muito as paredes dos seus solares. Foram estes homens e o pequeno e mal armado exército do General Silveira constituído por poucos militares de raiz e essencialmente por agricultores voluntários que foram desgastando a moral das tropas gaulesas ao ponto de Soult desistir de enfrentar o exército luso britânico que já se encontrava às portas do Porto. É interessante notar que, em contraste com o comportamento heróico das populações rurais, os centros urbanos foram conquistados com pouca ou nenhuma resistência e que nalguns casos os invasores foram até recebidos de braços abertos por simpatizantes da causa liberal estranhamente liderada por um imperador. Suponho que esse amor à Pátria ainda hoje é mais forte no interior eternamente mal tratado e abandonado pelos governantes. A dívida de gratidão para com esses heróis anónimos e homens como o General Silveira é inquantificável. Nada seria mais justo do que a devida atenção para com os seus feitos nos programas escolares para que as futuras gerações percebam que Portugal é muito mais do que os incompetentes dos nossos políticos deixam transparecer.
publicado por Conde da Buraca às 22:33
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Segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Parece que era do Real Madrid

Na sequência deste primeiro post sobre a naturalidade de Colombo, não posso deixar de registar que quem já não parece ter dúvidas são os espanhois (qual genovês, qual quê), acaba de ser eleito como o terceiro melhor espanhol de sempre. 

publicado por Conde da Buraca às 14:34
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Terça-feira, 24 de Abril de 2007

Colombo – Um dos Melhores Portugueses de Sempre (talvez no próximo concurso)

Ao ler a notícia de que o novo filme de Manuel Oliveira, em início de rodagem, aborda a tese de que Cristóvão Colombo (CC) é português, veio-me à memória uma frase batida o best seller de seu nome “Codex 642” da autoria do nosso Fernando Pessoa (1) do Séc. XXI, José Rodrigues dos Santos (JRS). Não, não vou divagar sobre esse marco da literatura que são as linhas que nos dão a conhecer o poder afrodisíaco da sopa de leite sueco. Só por esta pequena referência penitencio-me, tenho consciência que para um criador do calibre do JRS seja frustrante constatar que a análise à sua obra se cinja, principalmente, a um punhado de linhas. Mas quanto a isso, infelizmente, nada há a fazer, a grandeza literária desse momento é de tal ordem que, inevitavelmente, ofusca a qualidade de todos os demais. Não sei se foi esse o motivo mas a verdade é que o principal eventual mérito do livro, logo a seguir ao já referido, promover o debate público da investigação do Historiador Augusto Mascarenhas Barreto (AMB), acabou por não se concretizar. AMB dedicou vinte anos da sua vida na investigação / desenvolvimento da tese de que CC, português de gema, terá desempenhado as funções de 007 ao serviço de Sua Majestade El Rei D.João II. Segundo as suas conclusões, publicadas em dois livros (este de 1988 e mais este de 1997), D.João II, face à crescente cobiça dos nossos vizinhos pelas riquezas oriundas do Oriente, terá decidido desviar as atenções destes para outro continente que já conhecia, fazendo com que, através de CC, acreditassem que tinham descoberto as costas orientais do continente asiático. O valor desta descoberta é incalculável, não tanto por o homem ser português mas principalmente porque, afinal, ao contrário do que bradam os nuestros hermanos, deste lado da fronteira há muito que já se conhecia a forma geométrica do planeta. Por cá não havia dúvidas quanto ao caminho marítimo mais curto para a Índia, grandes gargalhadas devem ter ecoado em Lisboa com as notícias da felicidade castelhana (só uns anos mais tarde é que se aperceberam que a Ásia ficava um “pouco” mais distante). Segundo as palavras de Miguel Castelo Branco, JRS terá bebido sofregamente a tese de AMB sem deixar uma única palavra pública de louvor à fonte de inspiração. Como se sabe o Codex 632 foi um sucesso comercial mas não teve o condão de lançar o debate do tema. O novo filme de Manuel Oliveira é mais uma oportunidade que, provavelmente, também será desperdiçada. A indiferença das forças mobilizadoras de Portugal em relação a este tema é algo de inclassificável. Em 1991, numa imperdível entrevista concedida à revista Kapa, AMB relatava o alucinogénico episódio da nossa Secretaria de Estado da Cultura de então que, em resposta ao porquê de não ser tomada uma posição, terá formalmente informado a sua inutilidade, como nos seus quadros não havia pessoal qualificado para tal, o melhor seria esperar que os países estrangeiros se manifestassem (quiçá a Espanha ou a Itália). Hoje, 20 anos depois da primeira publicação, o governo português dá alguns sinais de evolução com a presença da ministra da cultura na inauguração da estátua de CC na Vila de Cuba mas sempre com muitas reservas. Referiu na ocasião Isabel Pires de Lima que gostaria imenso que fosse demonstrada a naturalidade cubana de CC mas que relativamente a essa questão, Cuba e muito menos o seu ministério, nada ordenam. Será que o motivo desta incapacidade para ordenar é a existência de algum botão encarnado que quando premido fará cair sobre Portugal uma chuva de mísseis nucleares ou será que a razão continua a ser a mesma, falta de pessoal qualificado. Se a causa é a primeira, os sucessivos governos estão de parabéns, têm conseguido evitar o desastre nuclear, se não o é, porque não se abre os cordões à bolsa e se contrata uma equipa de historiadores de renome, incluindo estrangeiros, para avaliar e emitir um parecer sobre as provas apresentadas por AMB. Seria o procedimento mínimo expectável de qualquer governo que preze pelos interesses do seu país e, estou certo, ficaria mais em conta do que a verba disponibilizada para a realização do novo filme de Manuel Oliveira. Independentemente das conclusões, estaria cumprido o dever para com o nosso passado. Sendo o resultado favorável, Portugal estaria em condições de formalmente solicitar ao Governo Espanhol a disponibilização dos dados referentes ao ADN da família Colombo (CC e o seu irmão) de forma a  poder compara-los com os antepassados identificados na árvore genealógica portuguesa, na qual se inclui o Rei D.Duarte, avô do navegador. Em nome da verdade histórica, o compartilhar de tais informações não poderia ser recusado, além do mais, facilitaria a obstinada pesquisa genética (mas sem os resultados esperados) que tem vindo a ser realizada em Espanha e Itália em busca das origens de CC. Isabel Pires de Lima acha que o seu Ministério pouco pode fazer, talvez o da Agricultura possa ajudar. Duas notas finais, uma para a imprensa portuguesa que, com raras excepções, pouco procurou saber das razões da inércia governamental, a outra para os deputados da oposição que também não têm manifestado qualquer tipo de interesse, destaco, por razões óbvias, o PPM, cujas intervenções do seu líder no parlamento, à data, se resumem na oposição ao corte dos apoios financeiros da companhia de teatro barraca e também na oposição da instituição do dia nacional do yoga.

 

(1) Fernando Pessoa é aquele personagem de chapéu e óculos arredondados que figurava entre os 10 melhores portugueses de sempre.

publicado por Conde da Buraca às 14:44
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2007

E antes do Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908?

Neste post do Combustões a propósito do 99º. Aniversário do assassinato do Rei D.Carlos e do Princípe Herdeiro Filipe, aponta com convicção o seu autor, cujos textos muito aprecio e são motivo de visita diária, como causa para uma série de trágicos acontecimentos que se verificaram em Portugal no decorrer do século XX, o brutal regicídio de 1908. Depreende-se das suas palavras que se a monarquia constitucional tivesse sido mantida até aos nossos dias, Portugal, hoje, fruto da liderança de homens pré-destinados para esse tipo de funções, seria um País bem melhor do que o actual. Talvez sim, talvez não, isso é coisa que nem o Miguel Castelo Branco nem ninguém, algum dia o poderá saber. E como tal não é possível e já que se fala da separação de Portugal da Europa, questiono-me se esse divórcio não terá principiado bem antes, algures no início do Séc. XVI, no Reinado de D.Manuel I, quando este monarca com as suas ambições ibéricas terá iniciado um processo de destruição do trabalho que levou um século a edificar pelos seus antepassados. Portugal, na época um reino vanguardista que liderava o domínio das ciências, pólo de atracção dos cérebros de toda a Europa, enveredou por um longo caminho de intolerância e regressão. Que diria o Infante desta política que levou os estudantes da Universidade de Coimbra a desconhecerem, em pleno Séc. XVIII, os trabalhos de Copérnico, Galileu e Newton, só para referir os mais famosos. Que diria D. João II se lhe contassem que a grandeza do seu reino, 400 anos depois do Tratado de Tordesilhas, seria apenas uma miragem do passado que cegava os novos governantes ao ponto de conduzirem Portugal à humilhação e ao descrédito internacional que foi o ultimato inglês. Acreditaria ele que em 1891 Portugal estaria falido ao ponto de durante 90 dias a convertibilidade das notas de banco vir a ser suspensa. Será que a taxa de analfabetismo de aproximadamente 75% (Censos de 1900) em comparação com as taxas inferiores a 1 % de países como a Noruega, Dinamarca, Suécia ou a Alemanha já não seria um sintoma dessa separação da Europa. A D.Carlos é gabado e reconhecido o seu patriotismo, a sua apetência para as artes, a paixão pelas investigações oceânicas, o tiro certeiro mas faltou-lhe o que Portugal mais precisava, capacidade política para mudar o rumo dos acontecimentos como o atestam as treze eleições gerais no seu reinado de 19 anos (bem longe do recorde da primeira república, há que o registar, mas não deixa de ser uma marca simpática). Depois D.Carlos falhou naquelas pequenas coisas a que o pobre dá muita importância, um Rei tem que dar o exemplo, não pode em tempos de vacas magras trocar de iate real como quem muda de camisa (começou com o Amélia I e já ia no Amélia IV), o perdão total da dívida dos adiantamentos à casa real é também outro exemplo de insensibilidade política que muito contribuiu para o atear da fogueira. Tivesse D.Carlos reinado em épocas anteriores, as recordações de hoje seriam outras, quis o destino que fosse ele a receber o pesado fardo dos erros dos seus antepassados. O grande responsável pela queda da monarquia e pelo caos político que se seguiu foi a própria monarquia, foi ela que encaminhou Portugal para a miserável situação de então, criando-se as condições ideais para que o Partido Republicano e organizações extremistas como a Carbonária crescessem tanto em tão pouco tempo. É verdade que, aquando da criação do Partido Republicano, o apoio popular deste era minoritário mas já não se pode afirmar o mesmo em relação aos últimos anos da monarquia. E os factos são que em 1908 o Partido Republicano venceu as eleições na Câmara Municipal de Lisboa (toda a vereação do P.R.P) e que após a proclamação da República, a adesão foi unânime em todo o país, não se tendo verificado manifestações contrárias nem por parte dos militares, nem por parte dos civis.
publicado por Conde da Buraca às 08:20
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